Marcha Zumbi +10

Espaço para divulgação da Marcha Zumbi +10, que ocorrerá no dia 16 de novembro de 2005, junto aos meios de comunicação, militância, mundo acadêmico entre outros.

9.16.2005

Leci Brandão: a Marcha é reinvidicação e questionamento

Aplaudida de pé pela sociedade santista, a cantora Leci Brandão recebeu na noite de ontem o titulo de Cidadã Emérita da cidade de Santos. Emocionada, em entrevista à Equipe Eparrei Leci falou da homenagem e sobre a Marcha Zumbi + 10.



P - Como a Sra. se sente enquanto mulher negra recebendo esta homenagem? R- Eu fico muito grata a Deus e toda vez que eu recebo essas homenagens de ser cidadã de uma cidade, mas muito em especial de Santos, porque eu conheço a cidade há muitos anos. Já fiz uma infinidade shows aqui, tenho uma iniciação com Santos através da Casa de Cultura da Mulher Negra, porque a Alzira Rufino em 85 me convidou para ser madrinha. Eu jamais poderia imaginar que essa coisa poderia se desenvolver, evoluir para eu de repente vir participar da procissão de Iemanjá, que já estou há três anos participando e agora recebo esse título de Cidadã Emérita de Santos. Eu fico muito honrada por causa da minha história de vida, de ser uma pessoa de origem humilde, de ter morado em escola pública, de ser filha de uma servente de escola e agora estar recebendo esse reconhecimento por parte do pessoal da Baixada Santista, é muito legal, é um exemplo, a gente ajuda, como a Claudete falou, a formação de muita mulher negra pobre desse país. Somos um exemplo de que viemos lá de baixo e conseguimos subir e com honra e dignidade, sem se prostituir, sem ser subestimada por esse processo escravagista que tem aí, sempre brigando, assim é bom.

P- A opinião sobre a Marcha Zumbi +10.


R- Veja bem, eu nem pertenço a nenhum movimento, eu não pertenço a nenhuma entidade. Eu sou uma pessoa extremamente independe e desde que eu comecei a minha carreira, eu estou fazendo trinta anos de carreira, em todos os meus álbuns, sempre tem alguma letra, alguma coisa que falasse da questão racial. Eu acho que essa Marcha que vai ser feita pela sociedade civil e pelo movimento e que vai reivindicar muitas coisas, que vai questionar muitas coisas, enfim, pra mim, a grande marcha é essa, a do dia 16. Espero que a gente possa sensibilizar as pessoas, o governo para que eles possam atender as reivindicações, porque são coisas tão antigas que nós vamos reivindicar, acaba sendo as mesmas coisas todo ano, mas a gente tem que continuar sempre lutando, sempre fazendo a marcha, porque se a gente parar, a coisa esfria.

A gente não tem que se sentir atrapalhado pelos problemas do governo não, nós temos que pedir satisfações, apesar que já deveriam ter dado satisfação para o movimento, porque a gente sempre levantou a bandeira, camisa, fitinhas e agora, como é que faz?
Eles tem que chegar perto da gente e dizer quem roubou, quem não roubou, porque nós queremos saber e temos o direito de saber. A gente não tem a obrigação de votar? Então nós temos que cobrar também.

Fonte: Boletim Eparrei Online (Casa da Cultura da Mulher Negra)

9.13.2005

Visões sobre as Marchas e o fim da era da inocência

Por Sueli Carneiro, editora deste blog

Em 1995, quando da realização da Marcha Zumbi Contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida afirmamos no documento oficial da Marcha que ela era o:

“ato político mais importante realizado pelo Movimento Negro Brasileiro nos últimos 20 anos. A Marcha demonstrou que somos capazes de dar á luta o racismo um caráter unitário e nacional, respeitando as diferentes perspectivas de ação política existentes no Movimento Negro. Esta ação unitária e nacional nos habilita como interlocutores dos poderes constituídos de nossa sociedade, e nos coloca como agentes de transformação das condições de vida do povo negro deste país. Nesse sentido estamos diante de um desafio histórico: consolidar esta perspectiva política aberta pela Marcha ou retornar às velhas práticas que, a serviço do racismo, têm nos transformado em inimigos um dos outros. Que os orixás nos iluminem para que estejamos à altura dos desafios que o avanço de nossa luta nos coloca hoje.”

Passados dez anos estamos novamente diante dos mesmos desafios porém numa conjuntura significativamente diferente daquela. Costumo me utilizar abusivamente de frase cunhada por Jurema Werneck que já transformei em bordão para ilustrar diferentes situações. Diz ela: “a era da inocência se acabou, já vai tarde.” Se, de um lado, essa frase, expressa nesse momento os desencantos e desesperanças em relação à conjuntura política atual, de outro, ela equivale também a uma oportunidade de libertação dos mecanismos que historicamente vem tutelando a ação política dos negros brasileiros, anunciando a possibilidade de sairmos da menoridade política para alcançar o patamar de autonomia, e autodeterminação que caracterizam qualquer movimento social maduro e consciente do papel histórico que lhe cabe cumprir em defesa dos interesses dos seus. Isso requer a coragem política de afastar-se das formas consentidas e subordinadas de resistência; das agendas políticas que exigem a sujeição e fidelidade a pactos políticos estranhos aos nossos interesses, à cultura política de contentar-se com as migalhas que os poderes instituídos reservam aos considerados politicamente irrelevantes.

De diferentes atores hegemônicos vem sendo vocalizadas propostas de novos pactos políticos à revelia dos atores sociais que expressam as dimensões mais agudas da dívida social. Esses ensaios de concertação político/social pelo alto adensam novas e inusitadas dimensões à Marcha de 16 de novembro próximo que exige de nós não apenas um definição conseqüente e competente da agenda política capaz de inscrever efetivamente a nossa racialidade nos quesitos básicos da cidadania e que tem no Estatuto da Igualdade Racial tal como proposto pelo senador Paulo Paim a sua melhor tradução como também exige uma leitura da atual conjuntura e de seus possíveis desdobramentos no futuro imediato sobretudo no que diz respeito ao desafio de tornar o ativismo negro em sujeito político relevante nos processos de construção dos novos contratos sociais que começam a ser ensaiados na sociedade brasileira. Dentre as muitas questões que temos a responder para que a Marcha encontre o seu ponto mais elevado de expressão do protagonismo negro estão: quais são os cenários políticos que se delineiam? Qual o espaço político em cada um deles para nossas reivindicações? Quais as possibilidades de seu atendimento? Para quando? Com quem? A agenda de políticas públicas que temos a propor é para agora ou para o próximo mandato? Quais são as condições políticas para a pressão pela aprovação do Estatuto e demais pleitos?

Em qualquer dos cenários que identifiquemos certo é que é hora do Movimento Negro resgatar a iniciativa política numa demonstração de que não se dispõe a aceitar passivamente ou se limitar a apenas referendar arranjos políticos entre velhas e novas elites políticas. É hora de sair da condição de reféns, de recusar a tutela como modo de subjetivação política, de encarar a trágica realidade de que estamos sós, por nossa própria conta e que se não fizermos por nós, ninguém o fará. É hora de ousar e exigir lugar nas mesas de negociação que pretendem refundar os dispositivos de poder da República sem a participação republicana de todos.

Sobre pintinhos e águias

Somos nós que parimos pintinhos e águias (detalhe, as e os).

Somos as mães do Acari, da Candelária, as cobaias exterminadas pela esterilização em massa, a maioria das chefes de família, as que continuam lutando pela paternidade responsável, e ainda, a maioria que morre de aborto ilegal nesse país.

Somos nós, mulheres negras, que acompanhamos o velório de nossos filhos, netos, sobrinhos, irmãos e vizinhos.
Continuamos levantando uma bandeira de luta com o coração em sangue e com a cabeça, que pede justiça em todos níveis.

Somos as quilombolas, as yalorixás que preservam os focos de resistência, as domésticas, as religiosas, as lésbicas, as diaristas, as advogadas, as médicas, as professoras, as enfermeiras, as empresárias, legisladoras, as profissionais do sexo,as professoras, as anônimas...

Somos mulheres negras de vários segmentos do movimento social que esperam a implementação das políticas de ações afirmativas acordadas em Durban para população negra.

Em 1995, a direita nos acusava de ser contra o governo, em 2005 a história se repete.

Ser mulher de verdade é não achar bonito não ter o que comer. Sempre estivemos e estaremos cobrando as nossas especificidades, seja no governo de direita, de esquerda ou de centro. Antes de ter participado da Fundação do Partido dos Trabalhadores na cidade de Santos, eu já ERA NEGRA E CONTINUO SENDO.

A população negra pensa, mulheres negras pensam. Não somos alienadas .

Reafirmamos a nossa posição de estar na Marcha do dia 16 por nossa própria conta e risco.

Quando alguma coisa nos faz mal, vomitamos, e não é por estarmos grávidas. Isso significa preservar a saúde mental.

Lélia Gonzalez, hoje no Orum e nós aqui no Ayê, continuando a trabalhar para mudar essa história de submissão, silêncio, estupro ideológico social e político .

Duas Marchas e a liberdade de optar por propósitos é hoje a decisão do Movimento Negro Brasileiro.

Enfim, entendo que chegamos a exaustão das discussões e a meta agora é trabalhar para que elas realmente aconteçam.

Violão não toca sem corda e não se faz passeata sem gente.

Ter em mente para estar lá com dignidade, sem estar pedindo ticket alimentação para nenhum governo. Sabemos que não se chega em Brasília à pé ou a cavalo. Sugiro que as associações de bairros, as Ongs, os ( as) profissionais liberais, os (as) autônomos (as), assalariados (as), funcionários (as) públicos, empregados (as) e desempregados (as) ou não, e + afins, entendam o significado de união para captar recursos e realmente fazer acontecer a explosão negra em Brasília.

Proponho que, as pessoas, mulheres e homens negros mostrem a sua cara respondendo aonde estão, para onde vão e no que acreditam. Não sejamos atores e atrizes de um palco iluminado.

Fátima, parabéns pela coragem, característica de nós, mulheres negras, que desde a Abolição desempenhamos um papel de resistência negra no país. Com certeza não estaremos lá como "Abre Alas que eu quero passar"...
Ânimo, não podemos fazer + Marcha à RE.

Esperamos que as nossas deusas e deuses continuem nos fortalecendo.

Nossa realidade é dura, mas tem raiz que segura.

Axé para todas (os).
Alzira Rufino, Mulher Negra.

9.12.2005

Entrevista: Fátima Oliveira

Jamile Chequer (IbaseNet)


Fátima Oliveira, médica e secretária-executiva da Rede Feminista de Saúde, aborda assuntos ligados à política, à educação, à saúde, ao racismo, aos movimentos sociais, à mídia, entre outros. Nada escapa a sua análise. Ela nos mostra que o caminho em direção à igualdade de oportunidades para brancos(as) e negros(as) está sendo construído, com muita luta, mas ainda há longa quilometragem pela frente.


IbaseNet – Poderia fazer uma retrospectiva do movimento negro nos últimos 10 anos?


Fátima Oliveira
– Na última década, o movimento negro, em especial de mulheres negras, conseguiu consolidar um sentimento contestatório anti-racista e reivindicar políticas públicas de garantias mínimas de cidadania. Trata-se de uma vitória política importante na luta contra o racismo. Por outro lado, fruto da maior organicidade e solidez das instituições negras, foi possível pressionar o Estado a responder, ainda que pontualmente, a algumas reivindicações. Ainda temos um longo caminho para que as elites políticas (Executivo, Legislativo e Judiciário) se dêem conta de que é impossível que o Brasil chegue a algum lugar decente, alijando a metade de sua população do acesso a bens mínimos.


IbaseNet – Quais as conquistas e entraves a serem resolvidos?


Fátima Oliveira
– Foi na última década que o Estado reconheceu que é um país racista e que precisava deixar de ser. Daí decorrem os anúncios de que há, pelo menos, boas intenções para enfrentar faces do racismo. Faltam os gestos de fato, pois simbólicos, no governo Lula, temos a Seppir (Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial); a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Decreto 4.886, de 20/11/2003); o Programa Diversidade na Universidade (Medida Provisória nº 66 de 26/08/2002). Além de outras promessas bem elaboradas, como a inclusão do recorte racial/étnico no Plano Nacional de Saúde (2004) e o destaque à saúde da mulher negra na Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (2004). É inegável, há diretrizes de governo que contemplam o combate ao racismo institucional, mas queremos que isso faça diferença em nossa vidas, e temos pressa. Queremos que as intenções sejam transformadas em políticas de Estado, para evitar que o combate ao racismo fique na dependência da maior ou menor sensibilidade de determinado governo.


IbaseNet – Por que ainda temos entraves?


Fátima Oliveira
– Por que o racismo é uma erva daninha cujo combate não é simples. Exige que propostas se tornem propósitos políticos em forma de linhas orçamentárias específicas. Não se supera o racismo por decreto e nem apenas com boa vontade. Há entraves racistas estruturais e conjunturais. O do momento é a recusa do governo brasileiro em avançar rumo à democratização do Estado. Por exemplo, não referendar o Fundo Nacional de Promoção da Igualdade Racial proposto no Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS) expressa uma mentalidade racista. Ora, como acreditar na boa fé se o governo, que diz apoiar o Estatuto, se nega a conferir lastro financeiro específico para a implementação de políticas anti-racistas?

O que causa espanto é que a proposta é que o Fundo seja composto por recursos contidos na Lei Orçamentária da União, oriundos de: "125 milésimos das receitas correntes da União, excluídas as transferências para os estados, o Distrito Federal (DF) e os municípios e as receitas tributárias; 1% do prêmio líquido dos concursos de prognósticos; transferências voluntárias dos estados, do DF e dos municípios; custas judiciais arrecadadas em processos que envolvem discriminação racial ou racismo; e de doações". Penso que a recusa é uma explicitação de que os recursos públicos são considerados como algo privado, que o governante do momento pode dispor ao seu bel prazer.


IbaseNet – Há uma aproximação, de fato, do governo federal e o do movimento negro?

Fátima Oliveira – O governo Lula é um governo de coalizão, algo cuja imagem é uma Arca de Noé, na qual foram colocados exemplares de todas as espécies. Um governo de coalizão nacional é, por definição, complexo. E operacionalizá-lo, exige mais que manha, é preciso arte.


Como força atuante na sociedade, o movimento negro drenou quadros para compor o governo, sobretudo se considerarmos que mais de 90% do movimento negro de nosso país é de extração petista. Sem medo de errar, a Seppir é um mosaico de recursos humanos, pelo menos nos cargos de confiança, das diferentes facções petistas do movimento negro, com um ou outro de partidos da base aliada.


Não diria que essa realidade significa que há uma aproximação do governo federal com o movimento negro, mas que o governo federal, impelido pelas circunstâncias, buscou no movimento negro os recursos humanos que necessitava para elaborar e implantar uma política de feição anti-racista. Não fez mais do que a obrigação, pois, com certeza, é um dos movimentos sociais que vota em Lula, desde sempre.


IbaseNet – Há avanços em relação ao seu antecessor?

Fátima Oliveira – Um movimento de idéias libertárias não pode se dar ao luxo de ser injusto. No governo FHC, foram abertas muitas trilhas. Não seria possível ao atual governo dar a visibilidade que o combate ao racismo tem hoje, caso seu antecessor não tivesse feito algum gesto. Falo de visibilidade, e não de poder, pois compartilho da opinião que a Seppir ainda não possui poder. Se possuísse sequer teria sido ventilada a possibilidade de o governo ter dúvidas sobre o Fundo Nacional de Promoção da Igualdade Racial, quanto mais se posicionar contra. Na prática, há ministérios e ministros que valem mais, logo mandam mais. A Seppir é um dos que vale menos, não manda nada, o que é lamentável, mas dá a exata dimensão do tanto de quilometragem ainda temos pela frente.


IbaseNet – Poderia falar sobre o Estatuto da Igualdade Racial?


Fátima Oliveira
– O Estado brasileiro e suas classes dominantes, assim como o pensamento hegemônico de nossa sociedade, são pautados pela intolerância para com a diversidade racial, por tradição escravocrata. Uso o conceito de tolerância e seu oposto, a intolerância, me referindo ao respeito à alteridade (o outro), à diversidade racial e cultural no contexto de uma democracia pluralista, na qual nenhuma raça/etnia ou cultura domina a outra. Ou seja, bem diferente do conceito que a tolerância possui nas idéias iluministas, tendo como referência o cristianismo, a idéia do senhor/superior suportar o diferente, que foge do padrão de normalidade, por piedade/compaixão.


Diante da intolerância histórica do Estado para com a população negra, precisamos de um instrumento legal complementar à Constituição Federal. Um alicerce, em território nacional, para as recomendações contidas em instrumentos internacionais de proteção aos Direitos Humanos – tendo como foco a população negra (a Declaração e o Plano de Ação de Durban/2001, por exemplo) – fazendo ressoar na vida cotidiana, o preceito constitucional de "que todos são iguais perante a lei".

Tal instrumento é o Estatuto da Igualdade Racial. Hoje, considero a sua aprovação, na íntegra, incluindo o Fundo Nacional da Promoção da Igualdade Racial, a maior bandeira que anti-racistas devem e precisam desfraldar. Temos de pressionar o Congresso Nacional pela sua aprovação. Temos de realizar ampla mobilização nacional para que o governo Lula não tenha condições morais de vetar seus pontos.


IbaseNet – O Dia Nacional da Consciência Negra foi uma das conquistas do movimento. Porém, poucos municípios decretaram feriado...


Fátima Oliveira
– O reconhecimento do 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra e o fato de Zumbi dos Palmares ter sido elevado à condição de herói nacional são conquistas que enfiamos goela abaixo. Não havia mais jeito, aceitaram. Ficaria muito feio se assim não fosse. Mas daí a ser feriado no dia em que celebramos um herói nacional negro, símbolo da luta anti-racista, são outras lutas, que já estão em curso em muitos lugares.


IbaseNet – Você acredita no sucesso da Lei 10.639/2003,
que insere o estudo da história e da cultura afro-brasileira nos ensinos fundamental e médio?

Fátima Oliveira – Há leis que pegam. Outras, não. O esperado é que tudo o que diz respeito a populações racialmente discriminadas, que visa estabelecer novos padrões culturais, "não pegue". Trata-se de uma lei que precisa ser monitorada por nós com cuidado.


IbaseNet – Há um segmento que fala que não há professores(as) especializados(as) para ministrar aulas desse tipo...


Fátima Oliveira
– Ninguém nasce sabendo. O argumento de que não há recursos humanos especializados para a tarefa, indica a necessidade de investimentos na especialização, desnuda a necessidade de que eles existam para cumprir a lei. E os responsáveis pelo cumprimento da lei devem desempenhar o seu papel nesse sentido. Ou, não?


IbaseNet – Como você vê o sistema de cotas para o ingresso em universidades?


Fátima Oliveira
– As cotas existem para enfrentar situações nas quais não há igualdade de oportunidades, são um caminho indispensável para a construção da eqüidade. Constituem uma das muitas formas de políticas de ação afirmativa que visam minimizar exclusões. Constituem uma forma de reparação pública.


IbaseNet – Por que o assunto causa tanta polêmica?

Fátima Oliveira – No caso das cotas étnicas, é um debate pertinente à subtração de privilégios dos brancos. As cotas étnicas representam o direito à reparação, uma prática pedagógica para forçar os brancos a entenderem que usufruem de privilégios usurpados de afrodescendentes. Logo, é justo e ético que aprendam a compartilhá-los com os negros. Se não o fazem por livre e espontânea vontade, somos obrigados a impor uma pauta civilizatória. Sim, as cotas são instrumentos civilizatórios.

Em um país de mentalidade escravocrata como o Brasil, a primeira coisa que é alegada, é a clássica questão do mérito. Mas o que é mérito? Depende das circunstâncias. Além de ser um conceito cultural, mérito está eivado de subjetividades de diferentes nuances, visando atender a uma gama de interesses, dos mais virtuosos, aos mais vis, como a manutenção do status quo racista. Então, não é meritocrático que negros tenham construído esse país no lombo, como animais, e com trabalho escravo? Nos devem um país e nos negam até a igualdade de oportunidade de freqüentar as universidades que negros construíram com suas próprias mãos?


IbaseNet – Você trabalha com questões importantes para a sociedade: a luta feminista e a questão racial. Como tem sido a união desses temas?

Fátima Oliveira – O feminismo assim como a luta anti-racista são ideologias libertárias e ambas possuem fortes opositores, embora saibamos que a opressão de gênero e racial/étnica são entraves ao desenvolvimento e ao bem-estar coletivo. Não é fácil assumir as duas lutas ao mesmo tempo. É difícil compreendê-las como complementares, imagine vivenciá-las, cotidianamente, sobretudo em um país como o Brasil, com forte tradição machista e de esquerda clássica. Isto é, classista, de inspiração, majoritariamente, bolchevique.


IbaseNet – O que tem sido feito para reverter esse quadro?

Fátima Oliveira – Pelo Estado, posso dizer que, até hoje, nada. Os governos, os formuladores de políticas e até o próprio movimento feminista, pouco se detém sobre isso. A mulher universal, que é uma falácia, ainda é a grande referência. A reversão do quadro se dará pela luta das negras. Enquanto não tivermos milhões de negras nessa luta, a situação tende a permanecer desfavorável. Para vencer a opressão racial, devemos nos libertar com nossas próprias mãos. A liberdade não é uma concessão, mas uma conquista.


IbaseNet – Como vê a relação mídia televisiva e negros(as)?


Fátima Oliveira
– Os exemplos e as imagens são fortes em simbolismo. A TV brasileira não retrata o país. Experimente zapear [ficar mudando o canal da televisão] por pelo menos uma hora, conscientemente olhando o povo que a TV retrata, depois vá à rua. O povo que está nas ruas é outro! Eu já fiz isso, várias vezes. É um excelente método para a gente ficar antenada que há algo errado. E que isso tem nome, chama-se racismo.

A pressão política, sem tréguas, que muitas organizações negras têm feito, operou algumas mudanças. Poucas, quase imperceptíveis. Por exemplo, há núcleos de famílias negras em algumas novelas mais recentes, em geral pobres. De vez em quando aparece uma família de classe média. Mas é fato que já não é regra geral negros de novelas ocuparem, exclusivamente, posições subalternas e aparecerem como "cães sem donos", ou mesmo como um objeto, um móvel que compõe a cena.


IbaseNet – Já há uma mobilização para a Marcha Zumbi +10, em 2005, não é mesmo?


Fátima Oliveira
– Em 1995, realizamos, em Brasília, a Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, Pela Cidadania e a Vida. Em 2001, não à toa, a delegação brasileira era a maior em Durban, na III Conferência Mundial Contra o Racismo. De lá para cá, temos acumulado vivências, aprendizados. Dez anos depois, em 20 de novembro de 2005, pretendemos ocupar Brasília com a nossa cara preta, objetivando reavivar a memória do poder de que existimos: a que será que se destina? A Marcha Zumbi + 10 foi idealizada e está sendo conduzida exclusivamente por lideranças negras autônomas. Isto é, aquelas que deliberam sobre seu destino político, numa condição, parafraseando Steve Biko, de quem está na luta por sua própria conta.

A idéia da Marcha Zumbi +10 tem recebido a solidariedade de personalidades anti-racistas e outros movimentos sociais libertários. A Marcha é política, mas não deve ser partidarizada. Não é um ato contra o governo, mas tem como princípio não ser governista, portanto temos o direito e o dever de, em sua preparação, proceder a uma análise cuidadosa da conjuntura nacional e internacional. Então, a Marcha parte de um lugar no qual não cabem pessoas que no momento estão dando sua contribuição ao governo, mesmo aquelas que estão lá travando a luta interna para pautar as nossas bandeiras de luta. Não se desconhece o empenho de muita gente que está no governo. Mas também há quem está na Esplanada a passeio, inclusive negros.

Não é ético que ocupantes de cargos no governo, em nome da questão racial, e os partidos políticos queiram se apoderar da condução política da Marcha. Seria desrespeitoso da parte deles. A Marcha está aberta à solidariedade de todas as pessoas que com ela se identificarem, mas não abrimos mão de conduzi-la à nossa maneira.

42 ANOS DA MARCHA DE WASHINGTON


(Peço licença ao meu amigo Marco Antônio dos Santos e publico no blog Marcha Zumbi +10, seu lúcido texto sobre a marcha de Washington, ocorrida 42 anos atrás. Vale à pena a leitura do texto do Marco para se fazer um paralelo com o momento que vivemos hoje no Brasil. MA)

42 Anos da Marcha de Washington

Por Marco Antônio dos Santos editor do blog Marco Negro

Data: 28 De Agosto de 1963. Local: Washington – Capital Federal dos Estados Unidos. Personagem: um pastor afro-americano de apenas 34 anos de idade, discursando para uma multidão estimada em 250 mil de pessoas. Resultado: um ano depois foi aprovada a Lei dos Direitos Civis – o primeiro passo no Combate ao Racismo dado pelo Governo Federal Norte-Americano. Efeito Colateral: no dia 4 de abril de 1968, com apenas 39 anos, o mesmo orador foi assassinado.

O jovem pastor era Martin Luther King Junior – um dos principais lideres na luta contra a discriminação racial nos Estados Unidos. A Marcha de Washington foi um marco histórico da militância negra que mostrou sua força e organização.

Os coordenadores da passeata estimavam que conseguissem no máximo colocar 100 mil pessoas nas ruas. Igrejas e organizações não governamentais estavam auxiliando nesse transporte. A TV tinha uma visão mais tímida, falava de apenas 25 mil manifestantes.

O começo do evento estava marcado para as 13 horas e 30 minutos. O trajeto seria sair com a passeata atrás da Casa Branca, cruzar as principais vias de Washington, terminando defronte ao Lincoln Memorial. Mas uma bela surpresa animou os organizadores – antes da passeata já tinham conseguido reunir 250 mil pessoas.


Quem eram esses participantes da Marcha de Washington? Não eram só negros e militantes. O movimento de luta pelos Direitos Civis foi abraçado por fazendeiros, advogados, estudantes, operários, até brancos e estrelas de cinema.

Com alguns minutos de atraso começou o ato político, com a cantora afro-americana Camila Willians, cantou o hino nacional norte-americano, acompanhada em coro por todos os presentes. Em seguida falaram as lideranças, que tinham cada um não mais que 8 minutos.

Já eram 3 horas da tarde de um forte verão americano. O publico aguardam ansiosamente a fala do maior orador do dia. Quando o sindicalista Philip Randolph – respeitável em seus 79 anos de idade. Ele tinha sido o maior idealizador da Marcha, há mais de 20 anos atrás. Randolph presidia a Associação dos Cabineiros de Vagões-Dormitórios. Ele anunciou a fala de Martin Luther King Junior, o publico foi ao delírio. Era o líder moral dos Estados Unidos.

Antes de falar, uma estrondosa salva de palmas recebeu Luther King. Ele iniciou sua fala explicando a realização da Marcha e o porquê do palanque estar daquele local – o Monumento em homenagem ao ex-presidente Abraham Lincoln. Ele foi o presidente que assinou a promulgação da Abolição da Escravidão e p0or isso teve que enfrentar uma Guerra Civil.

Luther King lembrou, porém que o negro ainda não era um cidadão livre. Falou da luta pela garantia dentro da Constituição dos direitos a vida, liberdade e a busca da felicidade. Respondendo as alas radicais do movimento negro representada por Malcolm X, ele disse que o povo negro não deveria matar a sede de liberdade na taça do ódio e da revolta, apesar de argumentar que não deveria ficar satisfeitos com meias-verdades dada pelas elites do país.

Emocionado o reverendo batista largou o discurso e começou a improvisar num trecho muito conhecido hoje “... eu tenho um sonho, que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-senhores de escravos possam se sentar juntos à mesa da fraternidade”. Foram minutos de silencio, acompanhado pela multidão em lagrimas, como narra o escritor negro James Balwin.

Luther King terminou seu discurso pedindo que todos desses as mãos e cantassem um velho canto religioso dos tempos da escravidão “ livres finalmente! Livres finalmente! Graças a Deus Todo-Poderoso, estamos livres finalmente!”.

No período da tarde, o então presidente John Kennedy recebeu uma comissão de lideranças da Marcha em seu gabinete de governo, declarando apoio à pauta de reivindicação. Mas não foi ele que colocou a proposta em aprovação pelo Congresso Americano, pois menos de 3 meses depois, ele foi assassinado numa visita oficial a Dallas, no estado do Texas.


OS BASTIDORES DA MARCHA SEGUNDO MALCOLM X



A Marcha teve uma analise acida por Malcolm X, que a apelidou de “Farsa de Washington". Ele reconhece que houve uma adesão de pessoas que antes comportavam de uma forma passiva contra o racismo. Ele critica a participação de negros burgueses ao movimento, fretando trens com ar condicionado e indo para o evento em aviões, enquanto a imensa maioria viajava para a capital federal com carros caindo aos pedaços ou de carona.

O líder do grupo Mulçumano Pretos denunciava que a NAACP – National Association for the Advancement of Colored People (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor) por angariar boa parte dos donativos causando inclusive uma divergência séria durante a preparação do evento.

A causa disso foi a doação de mais de 800 mil dólares de organização não governamentais não negras, para organização da Marcha. O dinheiro teria vindo, pois as lideranças brancas seriam as verdadeiras articuladoras da Marcha, que deveria ser de protesto e raiva.

Malcolm também criticava a ingenuidade das lideranças que serviram de instrumentos para o marketing político internacional ao deixar que Kennedy passasse a imagem de grande aprovador das reivindicações, quando na verdade , ele tinha resistência aos pedidos.

Em seu livro autobiográfico, Malcolm dizia que era inimaginável ter revolucionários numa marcha onde a única canção era We Shall Overcome (Nós Venceremos), onde os negros oprimidos davam as mãos aos seus opressores. Ele era contrario a tática de Luther King de dar a outra face – modo cristão de fazer militância negra.

Há que indique um pouco de ciúme nas palavras de Malcolm por não ser chamado a discursar. Ele cita que uma pesquisa do jornal New York Times o colocava em segundo lugar como o orador mais procurado nos meios estudantis, perdendo só para o senador Barry Goldwater.

Mas suas palavras são verdadeiras, quando a grande Marcha de Randolph imaginada para pressionar o Governo em Washington foi manipulada e transformou-se num enorme espetáculo cinematográfico e inofensivo.

Essa era a diferença entre Martin Luther King e Malcolm X – um queria uma reforma pró negros dentro do sistema americano e o outro desejava mesmo a revolução popular, destruindo o que existia. Os dois foram barbaramente mortos, onde os mandantes dos crimes são obscuros. Há quem diga que o FBI matinha vigilância ininterrupta nos dois.

Sociedade se mobiliza para a Marcha Zumbi +10


Em 1995, foi realizada a Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, uma ação coletiva do Movimento Negro brasileiro, que teve como resultado a primeira iniciativa de implementação de políticas de ações afirmativas para a população negra no país. Dez anos depois, neste 2005 tão intenso, o Movimento Negro voltará a Brasília (DF) com a Marcha Zumbi + 10, avaliando os avanços conquistados e as dificuldades enfrentadas, nesse período, na luta por políticas públicas para superação das desigualdades raciais no Brasil. A Marcha Zumbi + 10 está sendo construída em mais de 15 Estados, protagonizada pelo Movimento Negro, com o apoio de redes e organizações aliadas na luta de combate ao racismo.

A Marcha está sendo coordenada por uma Articulação Nacional, que se reuniu em 13 e 14 de agosto, em Brasília, com o objetivo de mobilizar e organizar esta grande ação. A Articulação é composta por várias organizações e grupos do Movimento Negro e hoje possui representações de 12 Estados, todas presentes ao encontro: Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Bahia, Piauí, Maranhão, Goiás, Rio Grande do Sul e Paraná.

Mônica Oliveira, ativista do Movimento Negro, diretora do Regional Abong Nordeste 1 e coordenadora do Cenap (PE), salienta que, se em 1995 a luta foi pela implementação de políticas públicas de ações afirmativas, hoje, a intenção do Movimento Negro é avançar no aprofundamento e ampliação das políticas iniciadas nesses dez anos, garantindo simultaneamente a inclusão da população negra nos espaços e mecanismos de participação democrática. Numa visão mais ampla, o principal objetivo é "recolocar os fundamentos para a construção de uma sociedade justa, democrática e igualitária".

Durante a reunião, foram discutidos aspectos operacionais da Marcha - entre eles: constituição do Colegiado Nacional com os 12 estados presentes; formação das Comissões de Finanças e de Elaboração do Documento, que deverá ser entregue ao presidente da República durante a Marcha; definição de ações de ampliação da mobilização nos Estados. Os(as) participantes realizaram ainda uma avaliação geral da conjuntura nacional e da crise política em curso, analisando o Movimento Negro neste contexto de crise. Como resultado, as organizações emitiram a Nota Pública sobre a Crise Política Brasileira (disponível no site da Abong).

A Articulação Nacional da Marcha Zumbi+10 busca estabelecer alianças com outros segmentos, como o de mulheres, de direitos humanos, e outros, que estão no campo da luta contra o racismo. "Entendemos que o racismo não é "um problema do(a) negro(a)", mas um mal que afeta toda a sociedade brasileira", ressalta Mônica. "É preciso que todas as organizações e pessoas, comprometidas em seus projetos políticos com uma sociedade justa, democrática e verdadeiramente igualitária, cerrem fileiras em torno dessa luta. Não é possível a promoção da igualdade sem o combate sem tréguas ao racismo no cotidiano das relações em sociedade".

A Secretaria Executiva da Articulação Nacional da Marcha Zumbi + 10 está a cargo do Irohin e do Coletivo EnegreSer, organizações sediadas em Brasília. Entre em contato e participe: E-mail: irohin@terra.com.br. Tel.: (61) 3447-1729. (Fonte: Abong)

Está entrando no ar o blog da Marcha Zumbi +10


Este blog nasce com quatro objetivos básicos:


1) Divulgar a Marcha Zumbi +10;
2) Tornar-se espaço de referência para a militância e meios de comunicação;
3) Fortalecer politicamente a data do 16 de novembro como momento primordial da Marcha;
4) Estabelecer pontes de diálogo que sigam além da Marcha. Propiciando que a militância, a intelectualidade e as lideranças do Movimento Negro construam novas estratégias de ação e articulação.

Este blog é uma iniciativa individual das seguintes pessoas: Fátima Oliveira, Márcio Alexandre M. Gualberto e Sueli Carneiro. Essas três pessoas em comum acordo perceberam a necessidade de um espaço ágil, dinâmico que permitisse maior fluidez na circulação da informação. Por isto este blog e por isto a idéia de se fazer algo independente das organizações de cada uma das pessoas envolvidas.

As editoras e o editor deste blog afirmam seu compromisso político com a Marcha no dia 16 de novembro de 2005 e torcem para que este espaço sirva como aglutinador de idéias, proposições e ações futuras.