Marcha Zumbi +10

Espaço para divulgação da Marcha Zumbi +10, que ocorrerá no dia 16 de novembro de 2005, junto aos meios de comunicação, militância, mundo acadêmico entre outros.

9.13.2005

Visões sobre as Marchas e o fim da era da inocência

Por Sueli Carneiro, editora deste blog

Em 1995, quando da realização da Marcha Zumbi Contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida afirmamos no documento oficial da Marcha que ela era o:

“ato político mais importante realizado pelo Movimento Negro Brasileiro nos últimos 20 anos. A Marcha demonstrou que somos capazes de dar á luta o racismo um caráter unitário e nacional, respeitando as diferentes perspectivas de ação política existentes no Movimento Negro. Esta ação unitária e nacional nos habilita como interlocutores dos poderes constituídos de nossa sociedade, e nos coloca como agentes de transformação das condições de vida do povo negro deste país. Nesse sentido estamos diante de um desafio histórico: consolidar esta perspectiva política aberta pela Marcha ou retornar às velhas práticas que, a serviço do racismo, têm nos transformado em inimigos um dos outros. Que os orixás nos iluminem para que estejamos à altura dos desafios que o avanço de nossa luta nos coloca hoje.”

Passados dez anos estamos novamente diante dos mesmos desafios porém numa conjuntura significativamente diferente daquela. Costumo me utilizar abusivamente de frase cunhada por Jurema Werneck que já transformei em bordão para ilustrar diferentes situações. Diz ela: “a era da inocência se acabou, já vai tarde.” Se, de um lado, essa frase, expressa nesse momento os desencantos e desesperanças em relação à conjuntura política atual, de outro, ela equivale também a uma oportunidade de libertação dos mecanismos que historicamente vem tutelando a ação política dos negros brasileiros, anunciando a possibilidade de sairmos da menoridade política para alcançar o patamar de autonomia, e autodeterminação que caracterizam qualquer movimento social maduro e consciente do papel histórico que lhe cabe cumprir em defesa dos interesses dos seus. Isso requer a coragem política de afastar-se das formas consentidas e subordinadas de resistência; das agendas políticas que exigem a sujeição e fidelidade a pactos políticos estranhos aos nossos interesses, à cultura política de contentar-se com as migalhas que os poderes instituídos reservam aos considerados politicamente irrelevantes.

De diferentes atores hegemônicos vem sendo vocalizadas propostas de novos pactos políticos à revelia dos atores sociais que expressam as dimensões mais agudas da dívida social. Esses ensaios de concertação político/social pelo alto adensam novas e inusitadas dimensões à Marcha de 16 de novembro próximo que exige de nós não apenas um definição conseqüente e competente da agenda política capaz de inscrever efetivamente a nossa racialidade nos quesitos básicos da cidadania e que tem no Estatuto da Igualdade Racial tal como proposto pelo senador Paulo Paim a sua melhor tradução como também exige uma leitura da atual conjuntura e de seus possíveis desdobramentos no futuro imediato sobretudo no que diz respeito ao desafio de tornar o ativismo negro em sujeito político relevante nos processos de construção dos novos contratos sociais que começam a ser ensaiados na sociedade brasileira. Dentre as muitas questões que temos a responder para que a Marcha encontre o seu ponto mais elevado de expressão do protagonismo negro estão: quais são os cenários políticos que se delineiam? Qual o espaço político em cada um deles para nossas reivindicações? Quais as possibilidades de seu atendimento? Para quando? Com quem? A agenda de políticas públicas que temos a propor é para agora ou para o próximo mandato? Quais são as condições políticas para a pressão pela aprovação do Estatuto e demais pleitos?

Em qualquer dos cenários que identifiquemos certo é que é hora do Movimento Negro resgatar a iniciativa política numa demonstração de que não se dispõe a aceitar passivamente ou se limitar a apenas referendar arranjos políticos entre velhas e novas elites políticas. É hora de sair da condição de reféns, de recusar a tutela como modo de subjetivação política, de encarar a trágica realidade de que estamos sós, por nossa própria conta e que se não fizermos por nós, ninguém o fará. É hora de ousar e exigir lugar nas mesas de negociação que pretendem refundar os dispositivos de poder da República sem a participação republicana de todos.

2 Comments:

  • At terça-feira, 13 setembro, 2005, Anonymous Anônimo said…

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  • At quinta-feira, 15 setembro, 2005, Anonymous Fátima Oliveira said…

    http://www.otempo.com.br/magazine/lerMateria/?idMateria=8666
    Marcha Zumbi + 10 reflete movimento
    MARIA LUTTERBACH

    A marcha nacional realizada em Brasília em 1995 para comemorar o tricentenário de Zumbi dos Palmares vai ser lembrada no próximo dia 16 de novembro, na Marcha Zumbi + 10, que está sendo preparada por entidades de vários Estados do país ligadas ao movimento negro.

    Com o objetivo de contribuir para o combate sistemático ao racismo, os representantes estão redigindo um documento com reivindicações da comunidade negra que vai ser entregue ao governo.

    Entre os principais pontos levantados em consenso pelas organizações, estão a defesa da liberdade para a prática das religiões de matriz africana; questões referentes à educação, como o aumento do número de vagas nas universidades públicas, e ações que contribuam para diminuir a evasão nessas universidades, e também a ampliação do acesso ao mercado de trabalho.

    Há quase dois anos preparando a marcha, o movimento vê a manifestação como oportunidade para um balanço sobre quais foram os avanços em relação às reivindicações da comunidade negra e que pontos necessitam de mais atenção por parte das políticas públicas.

    “Dez anos é sempre um momento de reflexão sobre as iniciativas em prol da igualdade racial, de avaliação e de construção de um novo conjunto de reivindicações. Nós permanecemos com uma agenda aberta em torno de várias questões voltadas para a promoção da igualdade racial nas áreas de educação, saúde e mercado de trabalho”, explica a filósofa e diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, Suely Carneiro.

    Crise política
    Segundo ela, a comunidade negra continua sendo foco de altos índices de desigualdade porque as políticas engendradas nos últimos dez anos se mostraram insuficientes para alterar esse quadro.

    “Embora tenham ocorrido algumas iniciativas positivas e embora a visibilidade dos problemas tenha aumentado, é preciso chamar a atenção do Estado para a necessidade de aprofundar os projetos”, completa Suely.

    Apesar de a marcha Zumbi + 10 não ter o objetivo de protestar contra a atual crise política, as organizações envolvidas se posicionaram recentemente sobre os atos de corrupção por meio de uma nota pública que exige a apuração e a punição dos envolvidos nos atos de corrupção.

    “Estamos diante de uma profunda crise do Estado brasileiro e do Governo, que tem origem em diferentes fatores e, principalmente, nos esforços de manutenção das estruturas que configuram a sociedade brasileira como uma das mais desiguais do mundo. (...) Queremos uma reforma política que altere em profundidade o sistema de representação política na sociedade brasileira e permita a incorporação de novos sujeitos políticos, garantindo a participação da população negra e inibindo práticas políticas moralmente inaceitáveis”, dizia um trecho do documento.


    http://www.otempo.com.br/magazine/lerMateria/?idMateria=8668
    Militante reclama dos partidos
    MARIA LUTTERBACH

    “Com a abertura democrática no início dos anos 80, o espaço vital do movimento negro eram os partidos políticos, que também aglutinavam as reivindicações de outros movimentos sociais”, contextualiza o jornalista Márcio Alexandre Gualberto, ativista e editor da revista “Afirma”, voltada para a comunidade negra.

    A aproximação dos movimentos a partidos políticos foi importante, na avaliação de Gualberto, mas também implicou uma postura tutelar dos partidos em relação às entidades.

    “Não acho que deve haver um rompimento com os partidos políticos, mas tem que haver uma busca por um patamar igualitário na discussão das pautas. Não temos conseguido construir um diálogo soberano com os partidos porque quem é do movimento e está em partidos está subordinado à lógica partidária”, analisa Gualberto.

    Segundo ele, hoje existe um “racha” que separa, de um lado, um movimento negro mais independente, constituído por ONGs, movimentos populares e juvenis “e, do outro, entidades que estão mais próximas do governo federal, como o Movimento Negro Unificado (MNU), a Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen) e as articulações de negros dentro de sindicatos”, diz o jornalista.

    http://www.otempo.com.br/magazine/lerMateria/?idMateria=8667
    “Manifestação é suprapartidária”
    MARIA LUTTERBACH

    Ainda que tenham apresentado a nota se posicionando pela punição dos envolvidos nas denúncias de corrupção, as entidades que organizam a Marcha Zumbi + 10 esclarecem que a manifestação é suprapartidária.

    “Os partidos em princípio existem para institucionalizar as demandas dos movimentos sociais, mas os partidos no Brasil não fazem isso. De um lado fica a sociedade e, do outro, os partidos. Como a demanda dos segmentos não interessa aos partidos, os movimentos vão pressionar diretamente as instituições públicas”, diz o coordenador da ONG Irohin (que sedia a secretaria da marcha), Edson Cardoso.

    Para ele, a reforma política que está sendo esboçada atualmente deve incorporar sujeitos do movimento social. Além da marcha programada pela maioria das entidades representativas do movimento para o dia 16 de novembro, existe uma corrente que quer colocar uma outra marcha na rua no dia 22.

    “Eles não se colocam como negros do movimento, são negros com vínculos partidários e obedecem aos desejos de seus partidos. Eles têm feito tudo para atrapalhar a mobilização, dizem que têm uma proposta, mas querem sim manifestar seu apoio ao governo”, afirma Cardoso.

     

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